
Quando eu era menina
tinha sonhos em cima das nuvens doces de algodão
meu perfume era o do mundo
meus pensamentos eram todos mais que sonhos...
eram realidade.
quando eu era menina
não tinha medo de ser grande
nem medo do desconhecido
nem medo em meio à curiosidade,
tinha muita curiosidade,
tinha vontade e desejo salientes de aprender
de sorrir
de me sujar
de me machucar andando de bicicleta
porque os meus medos vinham depois da vontade de superá-los.
quando eu era menina
minha boca tinha beijinhos
minha boca tinha um pobre vocabulário, mas já conjugava o verbo amar...
meus olhos eram coloridos, não eram só verdes
eram coloridos em todas suas escalas
meus olhos não tinham filtros...
não tinham.
quando eu era menina,
pouco tinha vivido
mas tanto tinha sentido
tanto, tanto...
quando eu era menina
tinha uma paixonite
e uma esperança de ficar grande
e ter um amor
e ter
e ter
e nunca saber o que era dor
quando eu era [bem] menina,
faltava eu crescer e conhecer mais rodas de brincadeiras
rodas da roda-viva
desta roda-viva-roda-vida
onde não se pode demorar num mesmo canto
pra ela não passar por cima
quando eu era menina,
às vezes, eu esquecia que tinha o amanhã
e vivia os melhores dias da minha vida por inteiro
como se fosse o último
com a sinceridade de um beijo de mãe
quando eu era menina,
fiz um pacto de não deixar de sê-la
nem quando eu escrevesse
'quando eu era menina'
pra nunca abandonar a beleza de ser
de ser curiosa
de ser aprendiz
de ser a primeira vez
de ter a primeira vez de tantas
de muitas experiências.
fiz um pacto dela não me largar nunca
mesmo em dia de encontro de muita gente grande
que era pra poder a menina se rir muito do grande vocabulário que ela juntou
e que hoje serve mais para complicar e mascarar
do que para ser livre...
mas se é assim
quando eu era menina
ainda é hoje!
e eu rio de mim mesma
sem maldade
mas de graça da palhaça que às vezes, me transformo.
...
[me olhando às avessas, mas sem devesas, nem rancor, rindo de mim mesma num dia maravilhoso em que ela está em casa, escutando conversas de outros mundos que nada têm em comum com o mundo que lhe interessa, com o dia lindo que lhe espera, espera, espera...]
Porque hoje também é de das crianças que cultivamos em nós. Para meus amigos, que ainda vejo como boas companhias de brincadeiras de rodas de outrora...