terça-feira, 4 de setembro de 2012

A chuva guarda as pessoas em suas casas
             quando casas existem
ou
guarda então nas desgraças da falta destas
A água corta o vidro
a água fere, falha, derrama, verte, inverte
água não é mar
é mais
é limpeza plena de terra
mesmo quando arrasta sonhos.



A escrita estava seca
rigidamente seca
Suas caudalosas idéias
        Foram-se...
vocabuláRIO rio abaixo...
em rio de desuso
ora lenta e sossegadamente
ora tempestiva e vorazmente
       em curva
       em reta
lavando as palavras
uma a uma
misturando as letras
      as idéias
      as histórias
      os pensamentos
e a poesia corre solta na superfície
tentando agarrar-se a um tronco de saudade
mas o que se sabe,
é que a correnteza da ignorância a levou queda d’Água abaixo
No curso do rio,
passam a esmo,
quase imperceptíveis,
as palavras mais doces,
uma dada à outra...
E num alvoroço mais à frente,
algumas palavras mais duras
      afundam...
algumas delas, arriscam puxar as outras tantas ao fundo das águas.
Mas o rio da conversa segue seu curso firmemente
deixando na terceira margem,
os escritos passageiros
e além de palavras,
lava as feridas de quem escreve
curando as de quem lê
e abre a alma de quem se fecha, aos poucos,
à beleza da criação.
Desaguando em mar aberto as novas idéias
Um cruzamento delas
Todas erguidas sob as mesmas palavras jogadas na nascente deste rio
apontando a mesma escrita
só que diferente
         renovada
         mais leve
         mais simples
com menos palavras
e mais significado.

a poesia não cabe na palavra
na escrita
a poesia se deixa caber em qualquer situação
não cabe numa pessoa
num verso
num olhar
a poesia se cabe onde der
ela não cabe
mas cabe quando der
quando dar.
a poesia é tão ela que se faz em muitas
em muitos
a poesia não cabe no papel
mas cabe onde ela estiver



Quando ela acha por bem
se sacoleja e se arranca da cama em Três tempos...
não quer ser acordada
não usa relógio para não ficar presa ao tempo
Ao objeto
Aos compromissos
Ela levanta, usa o banheiro
Olha o quarto, sem ver.
Sai deste canto. Calada.
Faz um barulho com os dentes para se sentir.
Evita o som de um animal qualquer na janela.
Põe a roupa que não carece ser passada, não carece de arranjamento
É tida, é toda, é tudo que é feito para ela sem a encomenda do desejo
Somente do que chega
Nada lhe faz falta no estilo, cabe em tudo
Empina um beiço quase carmim
Se aninha no cabelo, os dedos
Usa das unhas para dar fim a um cravo
Percorre uma milha do próprio corpo
Até se sente, ressente, assenta, o cento de pele que lhe cabe
Volta ao banheiro, ainda com a porta esgueirada que deixara pra trás
Passa pelo quarto, como quem vai fazer um check-out de hotel
Desce as escadas sem lembrar do corrimão
Sem se importar com os degraus
Atravessa a rua
Anda, anda, anda
Às vezes, voa.
Às vezes, se põe asas vinda de um não sei onde
Às vezes, se amarra num banco de ônibus
Até o sem fim
Andando por horas não contadas
E desce quando quer
No meio do nada
Ou bem no meio de tudo
Vestida de trator
De ignorância
De prepotência
De cegueira do outro
Passa assim, como quem não precisa do olhar de quem a vê
Certa da observação
Passa somente
Só passa
Mas incomoda
Não pelo cheiro, pelo andar,
Pela pele de porcelana, pelas ancas a marcar o tempo
Nem tão pouco pelo belo desenho de Deus na boca
Nada disso.
Incomoda, ela
A todos,
Pela companhia que a acompanha
De mãos dadas
Ela e a Solidão.

Quando?

Rasguei a roupa
Esqueci
Esqueci
Eu ainda lembro
Mas esqueci
A minha palavra não fala
A minha fala não escuta
Não finda sabendo
Não sabe findar
Enrola
O simples se complica
Assim
Sempre aqui
Não rasgo a roupa e a felicidade não passa.

Numa noite fria
Um beijo e tudo acontece
E o beijo nem veio a tempo
De acabar o amor
Que nunca aconteceu
Depois do interesse
Uma pele fria
Uma pela outra, fria.

Ria, eu ao chegar em casa
De como são feitas as coisas e as pessoas
Averso ao verso
avesso o verso
no caminho Inverso
caminho escrevendo
versos no verso
de cada verso
pra não vê a cara da poesia
Cara poesia,
és-me muito cara
a fazer-te em verso
neste tempo averso
a versos escritos
nos versos das cartas pobres de amor


O avesso do verso é a seca
por estes dias
não moro em mim
nem a poesia romanceada
não vejo outras cores nas flores
senão as suas próprias
a bunda gelada clama por encaixe
o sol não passa de uma bola de fogo
Averso ao verso
Avesso o verso
regresso a intimidade da existência
regresso o acesso à inteligência
não quero aprender
apreender a insatisfação
o inverso
das coisas em verso
não escrevo mais
em meus olhos,
a dias que não há poesia
só desgraça na tela é que se lê.
a cegueira se consome na escuridão de meus dias.
Um mundo novo foi criado
e eles vivem num só desde que se beijaram

Quando se conheceram, namoraram
beijaram-se tanto
em mil
que no dia que caíram desatentos no rio
em beijo, em água, em massa
nunca mais pararam de beijar
ou morreriam afogados
criaram assim, um mundo
pequeno mundo
ele mais ela
não precisavam de água
de comida
de sol
só de beijo
do beijo
Até hoje, o bicho é visto nas águas do rio Capibaribe
em noite de lua, nunca em dia de sol
o bicho virou um só
e cega os olhos
de quem tenta só vê
deixa livre a vista de quem sente.

Deus existe quando em mim é festa
Ele desce na roda
Quando canta o capoeira
Quando sola o sabiá
Ele dança na roda
Na batida do côco
Na levada do samba
Na colheita do canavial
Vez ou outra,
Ele grita num poema
Me cala num beijo
Num choro
Mas mora mesmo é no teu olhar



não é de terra o que se tem
é de mar
é da dança da água
a que não para, subverte
verte
.
não é de ar o que se viaja
é de rio
entre margens
no lambido veloz ou lento da terra
.
não é de fogo o que se queima
é de dentro
do peito
é de amor.
Encaixado no dia, um gesto da noite
enxugar o que trouxe a água dos olhos
um aperto
não de mão
perto, no peito

                                                                                                Para Maria Juliana, pela dor já sentida

Estas coisas da existência
do que se é
do que se passa a não ser
do que se tem
do que se passa a não ter
do que se é hoje
amanhã é lembrança
Os olhos de hoje
Não enxergam poesia na morte
só saudade

Sem poesia no peito
Porque da dor do outro
não se sente
senta-se ao lado,
Somente
Só mente,
     mente Sozinha

O instante de entender
a dor do outro
do querido,
mas que não se é ele.
Ele ainda há de pairar
no coração da menina nesta noite
sem pai.
Noite sem sorriso
sem conversa
sem chão
O chão-buraco
enfia-te nele, dor
some
Engole o choro, terra!
Faz flor neste terreno,
uma alma feliz
já que a noite longa
Insiste em brotar tristeza.
Estou prenhe da palavra
foi num descuido da preguiça e da ignorância
que ela se fez moradia em mim
Não sei em quanto tempo vou parir
mas ela se mexe, se contorce, torce em mim
Engraçado que eu imaginava que gravidez só mexia no bucho,
mas se reverbe e se escreve no corpo inteiro
verte no pensamento
na alma
eu me sinto prenhe de poesia
ora romanceada
ora contada
peitos rijos de alegria
a tristeza também tem seus dias.
Não sei quanto tempo ela vai se alimentar deste corpo
mas este mesmo corpo já se alimentou dela por uma vida
ó criança querida
tão sonhada menina jovem
pelas escritas que te projeto
protejo a senhora que canta e salta como criança
como anciã em pensamento leve de quem vai encontrar num próximo instante a oportunidade de nascer em mais um dia
eu estou grávida do meu pensamento
ele me tem feito mulher
feliz e astuta
vestida de princesa em pele de puta
ele tem deixado ultrapassar portas e saltar janelas muito além do horizonte
cada dia ele me conta um segredo
e não há criatura que se valha dessa aventura
eu estou grávida do pensamento
ele espera que eu aflore
eu espero que ele nunca flor
eu vou parir (n)um dia
para no outro germinar.
A palavra e a calada noite
Calada, mas com palavras crias!
Eu ainda estou prenhe.
de alegria.

Eu queria fazer uma música com isso,
contigo, comigo, sozinha...
eu queria fazer um poema,
uma música, um sexo...

Eu queria que isso não se perdesse.

mas insiste em ficar só no meu peito
ou nessa parada de confidências.
Quem sabe um dia eu não faço de você uma música, meu amor?
Quem sabe um dia eu não te faço
refaço/ me faço
no pensamento
numa tela
nos meus olhos?
Eu queria fazer uma música com essa minha história
um poema
um teatro
mas é que agora a minha disponibilidade
maior
mais sincera
é de transformar você em língua
em beijo
num toque
sem mágica
eu queria transformar você
mas deixo, por hora,
pra você fazer isso, meu amor.
Continuo querendo engravidar de uma música
tua.
um segundo: Te Amo.
Deixa eu cuspir esta palavra:
Indiferença
Ela deveria não fazer diferença
Mas diferença, já separa tudo
Os olhos e os olhares.
Vontade e fraternidade.

Já me apaixonei por uma flor
uma única cor
uma dezena de mulheres
e um único homem
por um cão
um pedaço de chão
uma música
uma letra
um nome
uma condição
eu já entreguei meu olhar a um estranho
                                     [um escândalo]
meu coração a um enfarto
mas foi desdenhado e não correspondido
eu já fui puta, cafetão, velha e marujo
dei o rabo a quem não merecia nem ter um,
quanto mais dois
já fui carregado bêbado, já fui largado
amado e desonrado
eu já fumei uma, duas, a inteira e a meia
entreguei minha alma a Deus
mas novamente, fui desdenhado
dei minha cara ao pecado
já fiquei parado quieto,
mas não deu certo...
o mundo todo caiu em cima de mim
Por isso, andei para dar à terra o que comer
Em outras horas,
não nestas,
me resta dar
estar
criar
crer e ser.
e um pouco, mas só um pouco:
                                                     Amar.

Meu último poema apodreceu
mofou das idéias
ficou no passado sem história
esquecido
sem ninguém pra contar
Meu último poema
é podre
é carne fétida
é obsoleto
Nascido a fórceps
meu último poema
nasceu morto.
Não lembro mais dele.



Na rua de chuva
o olho de sol
não seca lágrima
nem aquece corpo
contorce corpo
passando pela calçada
alçada de voos esquecidos
às putas contra-postes, a verba
aos pretos contra-sorte, o verbo

Na rua de chuva
a chuva lava as pequenas pedras
lança raivas pelas grande pedras
mas não lava alma
nem lança sobre os seus destroços

Nina quando os abriu, funcionou a olhar
em todos os detalhes,
as roupas de Antonio postas sobre a cama,
na espera do pós banho.
Na sala,
beijou os cabelos louros do filho cheirando à novidade
Bateu a porta
à porta do mundo
fechou os olhos para as horas passadas
atravessou o tempo
as ideias
os medos
soltou os cabelos
entregando-os ao vento
saltou a espera
De olhos bem atentos
varreu as vitrines da cidade
para além das cores e dos valores em cifras
adiantou o pensamento
pensou
parou
voltou a pensar
amassou o pensamento
e o depositou delicadamente no lixo das ideias
Realizou.
Andando ainda
Nina tirou a roupa,
embora se mantivesse vestida.
atravessou a passagem
Parou
abriu a bolsa
fitou o papel cor de rosa, um tanto colorido
enfeitado de carinho
e abriu, além do coração,
pela primeira vez no dia,
o sorriso.
Atravessou mais uma vez, a outra rua
conferiu papel e fachada
marcou o passo no elevador.
Na subida,
Nina ganhou cor
odor
liquidez
insensatez, chegou a pingar, até!
Abriu-se
Estava lá
ao fundo do corredor
no lado esquerdo,
como no peito,
a porta.
Conferiu
papel e porta
abriu-se ela em flor
em sorrisos muitos desde o primeiro
os dedos a funcionar em cachos novamente
cachos cheirando à novidade
cachos grandes e negros
misturados aos quatro braços
de Nina e Luísa.
Ao fundo,
o reflexo de carinho
no copo de vinho tinto.
A porta discretamente
pôs-se a fechar.

Deus insiste em aparecer em forma de mãe.
Volátil estÁtico

O canto estou
não mais aqui
este
é outro
não aquele
mas este ali
bem aqui.

ânima é estar cheio de Deus
vez ou outra, Ele anda por aí
em mim...
anda se travestindo de meu amor.

Tem dias que de chuva
tão lindos são
que parecem mais
do céu flores caídas
em lágrima de riso frouxo

preto de sol
soldado de sal
saudade de ter
findar o começo
reço meus atos
Raros, gastos, inatos
na noite que se destrói o meu peito
renasço feito no teu olhar
preto, brilha como prata
O olho denso,
O braço, tenso
O dorso pretenso
a embalar
bala fere, adoça
roça e passa língua
pele roça
preto, prata nata.

Quando me presto a escrever
a palavra cala
desempresta o olhar
à escrita
O corpo em chama por falar
cala-se no arder dos dias
as horas não se consomem, maltratam as palavras que se batem
por liberdade num corpo possuído por descontentamentos e desilusões
Grita palavra
Grita!
Sai na liberdade do pensamento
usa tuas asas de consciência
e teus pés de emoção
usa deste corpo
desta voz que tu consomes e segue teu curso
Não calas, querida!
Não te calas.
Não te pele
expele!
não te freies
desce a ladeira da expressão que te cria e consome.
Quem me dera descobrir um dia
que na palavra eu canto
a liberdade.
À liberdade, a palavra
À palavra, a voz
À voz, a coragem
À coragem, a gente
A gente toda contida na palavra todo.





ando devagar
porque a pressa
já me faz perder
a paisagem

Cada vez que ele dormia
sonhava um sonho bom
um sonho ruim
                                            sonhava
Cada vez que ele deitava
aflorava
toda noite
ou até de dia
o som
do sonho.

Mas um dia,
de noite,
em sonho,
ele descobriu que sonhar
era solitário
e forçou o sonho a encontrar uma companhia
dias de pesadelo...
noites a dentro...
Sonhava só.
Um dia,
acordado no sonho
cruzou a noite uma moça linda de morrer
de se vê na noite
Então, ele não mais dormiu neste sonho
manteve-se atento
puma leve
quando a presa dormiu
pôs-se a deitar em terra,
ao seu lado,
na esperança de não viver mais um sonho sozinho
e a surpresa foi grande
quando na noite, já dormindo, ainda em seu sonho
entrou no sonho dela
e a beijou como beijo de sonho
com gosto de goiabada, de creme...
E o som da verdade dormida e sentida
arrepiou-se em saber
quando acordado, que não era mentira
sonhara com a moça ao seu lado
no momento que ela virara realidade.
Passeando pela orla de Boa Viagem,
meu pensamento forma-se em mar

não pelo lado do mar
mas pelo lado do homem

Perguntava-me se o que se deseja
é mesmo o que se quer
se o que se tem é mesmo o que se quer
se o que se mostra é mesmo o que se é

Não há nada de novo nisso

O novo foi olhar que entre mil janelas de um apartamento de muitos mil’s,
um moço fumava entre as maiores janelas fechadas
Enquanto eu que nem varanda me fiz dona
tenho um mar inteiro a baforar
Mas casa eu queria
e ele, um céu aberto a tragar.
Não era um desejo, era uma observação.

Quem sabe o olho de lá dissesse:
- Ela tem um mar, um céu sem paredes.
E nenhum cigarro no bico
Mulher é bicho burro mesmo!

Mas eu só enxergava a fumaça.

O que eu quero da palavra
não se explica num papel

O que eu quero da palavra
vai além da letra/ da voz

O que eu quero da palavra
é a vontade do povo
de palavra
a palavra.
você chegou manso
        porta aberta
        tem um tempo
        veio buscar o amor em casa

eu cheguei mais
       pela porta
       neste tempo
       vim buscar o amor
                        em casa

                        pra casa

Antes, Surpresa
Hoje, Certeza.
                        
                       Amanhã é Hoje.

terça-feira, 6 de março de 2012

Encaixado no dia, um gesto da noite
enxugar o que trouxe a água dos olhos
um aperto
não de mão
perto, no peito

Voltei a publicá-los

Eles estão guardados na máquina,
mas a cabeça insiste em humanizar
dividir
não se sabe com quem
até comigo mesma
mas o grito, grita
mais alto e com todas as letras
neste peito
estão postos
a postos, os ditos pensados e nem sempre articulados.
não é de terra o que se tem
é de mar
é da dança da água
a que não para, subverte
verte
.
não é de ar o que se viaja
é de rio
entre margens
no lambido veloz ou lento desta terra
.
não é de fogo o que se queima
é de dentro
do peito
é de amor.