terça-feira, 1 de novembro de 2011

Para a Namorada!

Eu vou inventar uma nova língua pra me comunicar contigo

Uma que seja só nossa
Uma que não profere dizeres, mas diga muito
Uma que seja duas
Uma minha e uma tua
Pra que a gente
Se toque
Se escute
Se cheire
Se veja
E encontre
Além da silhueta
Além do contorno
O que o coração sendo precoce
Sentiu!
Sem que haja a necessidade de ser dita uma palavra.

Vou chamar essa nova língua de Amor.

[para Rita

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Para o Namorado!

Quando a palavra virou qualquer coisa.

mas eu ainda precisando dela pra calar
mas quando do calar
é preciso falar
eu me arrisco a tentar dar a ela a vida
a vida que me atenta em cada beira de pele.
É da vontade de externar que me roga a beleza de falar
sem saber me travestir do belo letrado
a tentativa me inquieta
e no erro vou acalmando minhas letras ainda não paridas na companhia de uma e de outra
porque como já me fiz dizer
juntando de pedaço em pedaço
a palavra não quer dizer nada mesmo
quem o quer sou eu
mas me falta coragem pra dizer que daqui a pouco é amor!

[Para Rafa]

domingo, 21 de agosto de 2011

de se esperar...



o menino tinha idade certa
não se sabe ao certo
mas a idade tinha, certamente
ele já podia sair de casa
saía
voltava
saía
voltava
ele podia sair
tinha idade certeira
de quem sai
e de quem chega
tinha dia que certo de sair
ele cruzava o tempo
e sem saber do que o movia
cruzava a vida
O menino já tinha idade
mas não compreendia
antes de sair de casa
o que ele via na cruzada do dia
era gente
era coisa
era animal
o vento, a luz, o dia, a noite...
e ele não entendia
o mundo parecia provocá-lo
ele acompanhado de si
via as companhias dos sorrisos dos outros
o peso de um afago leve no rosto
o preço do café em família
de um aperto de mão
e ele crescia?
no rodopio de um pai com o filho na praça
os olhos se enchiam de dúvidas
no abraço coletivo de amigos
a boca de desejo
o peito de sonho
mas ele via?
um sol que desfilava suas cores
um mar apressado
uma lua a mudar de roupa
um vento que afinava a voz
uma estrela desnuda?
ele sequer abria o canto da boca
nem pra dizer adeus
da idade que se despedia
e não mais tinha o menino.


[foto da Ilha do Massangano - Petrolina - Aldeia do Velho Chico - SESC - agosto 2011]

domingo, 19 de junho de 2011

Quando ela acha por bem

se sacoleja e se arranca da cama em três tempos...
não quer ser acordada
não usa relógio para não ficar presa ao tempo
Ao objeto
Aos compromissos
Levanta. Usa o banheiro.
Olha o quarto, sem ver.
Sai deste canto. Calada.
Faz um barulho com os dentes para se sentir.
Evita o canto de um animal qualquer na janela.
Põe a roupa que não carece ser passada, não carece de arranjamento
É tida, é toda, é tudo que é feito para ela sem a encomenda do desejo
Somente do que chega
Nada lhe faz falta no estilo, cabe em tudo
Empina um beiço quase carmim
Se aninha no cabelo, os dedos
Usa das unhas para dar fim a um cravo
Percorre uma milha do próprio corpo
Até se sente, ressente, assenta, o cento de pele que lhe cabe
Volta ao banheiro, ainda com a porta esgueirada que deixara pra trás
Passa pelo quarto, como quem vai fazer um check-out de hotel
Desce as escadas sem lembrar do corrimão
Sem se importar com os degraus
Atravessa a rua
Anda, anda, anda
Às vezes, voa.
Às vezes, se põe asas vinda de um não sei onde
Às vezes, se amarra num banco de ônibus
Até o sem fim
Andando por horas não computadas
E desce quando quer
No meio do nada
Ou bem no meio de tudo
Vestida de trator
De ignorância
De prepotência
De cegueira do outro
Passa assim, como quem não precisa do olhar de quem a vê
Certa da observação
Passa somente.
Só passa.
Mas incomoda
Não pelo cheiro, pelo andar,
Pela pele de porcelana, pelas ancas a marcar o tempo
Nem tão pouco pelo belo desenho de Deus na boca
Nada disso.
Incomoda, ela
A todos,
Pela companhia que a acompanha...
De mãos dadas:
Ela e a Solidão.


[Esse texto é pra Vanessa Lins, amiga de conversas longas e boas como um bom café ao entardecer no Recife Antigo]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Isso não é pra virar música

Tem dias que não se é.
Tem dias,
noites
meses
e já já o ano.
que não se aproveita a dança
Não é pra virar música o hoje
é fazer dela, silêncio
não é só calar
é ser
somente
um ser.
E tem dias que não se é
ou quase se é.
o quase
engole quase por inteiro
é metade
ou quase metade, já que é quase inteiro
e não o inteiro
quem sabe o meio
mas nunca lá
sai, mas não chega
quase se é
não nasce
porque pra viver
tem que ser por inteiro.