
Fui deitar...
Enquanto a mente também não fez o mesmo,
milhões de pequenos filmes se formaram.
junções de novas imagens
frescas imagens,
velhas imagens
outras tantas....
foram formando curtas da minha vida ...
dramas,
animações,
comédias,
alguns mudos,
outros embebidos de muito som, luz e cores
Enquanto isso....
o corpo cansado....
de dormir...
de esperar...
de sonhar...
Num dos filmes
veio a cena das tantas vezes que fiquei triste...
por alguém, por algo,
mas fiquei...
como num teste,
deu vontade de contar quantas vezes foram estas...
minha inocência...
mas em pouco tempo,
nem dedos mais haviam,
mas a lucidez me acordou por um instante
e comecei a rodar um filme
um bom filme, dos meus bons momentos,
muitas foram as cenas...
o meu primeiro beijo-selinho da minha mãe,
a cantoria no colo do meu avô,
o primeiro abraço quente e protetor do meu pai (que tenho lembrança)...
a primeira vez que escutei um "eu te amo",
a segunda vez que escutei um "eu te amo",
a terceira,
a quarta...
as vezes em série...
na cama,
baixinho, no ouvido,
na chuva,
numa música,
num choro,
numa praia,
num show,
numa transa,
num colo,
numa bebedeira,
num sonho,
na ida...
e na volta de uma viagem...
o dia que vi a lua mais bonita no Marco Zero do Recife,
o orgulho em ver minha irmã passar no vestibular,
o choro alegre do dia do casamento da outra irmã,
a primeira medalha de ouro do meu irmão,
a gargalhada da minha mãe quando enche a sala, após um copo de vinho (é a melhor)...
o abraço em salto de Teresa,
o gosto da boa melancia de Vó,
escutar com sorriso na boca os tantos apelidos dados a mim,
a primeira entrada num palco,
o primeiro prêmio de melhor atriz...
o dia que nenhum deus apareceu,
que nenhum milagre aconteceu,
que nenhuma descoberta científica foi divulgada,
mas em que reinava a simplicidade,
e eu saltei nos braços de alguém...
e o olhar era de só felicidade,
de confiança,
só simplicidade.
de ter tido um professor querido,
de terminar o dia de dever cumprido,
do banho na chuva...
sozinha, acompanhada, mas o banho, a chuva.
das vezes que escutei a minha melhor música,
as minhas tantas melhores...
do prazer de tocar uma pele macia,
de receber o primeiro beijo silencioso no ouvido,
as tantas séries deles...
do meu primeiro gole de vinho,
de beber o café expresso português,
do sorvete de baunilha com café espanhol,
a satisfação de ver o primeiro espetáculo da minha vida,
das risadas de Dona Doida,
da sensação de comprar sapatos,
de usar um bom perfume,
de lembrar de um bom perfume de pele...
das risadas provocadas de doer a barriga,
de comer quando se tem fome,
da água depois do doce,
do show de Maria Rita, no dia 28 de julho de 2006,
os shows de Djavan,
de advinhar as músicas nos shows,
de entrar em cena e fazer alguém feliz,
de tirar os sapatos e cochilar na rede,
antes do banho pra tirar o dia cansado,
pelo passear das mãos no rosto e no corpo
e conseguir reproduzir em questão de segundos,
os detalhes mínimos uma pessoa...
da felicidade de escutar um Chico,
uma Rita,
um Milton,
uma Elis,
um Gonzagão,
um Brasil,
em "Terra Estrangeira"...
da satisfação de imprimir numa imagem, poesia pura,
das vezes que o choro foi só o início do riso,
da primeira vez que pintei os olhos
e copiei Narciso no espelho,
da dança que ensaiei e não dancei pra você
mas que fez sorrir meu corpo,
de cada sorriso alheio que gerei,
de cada abraço que ajudei a criar ,
de notar a beleza de uma flor,
das muitas sensações que causam arrepios,
"frisson" só pelo cheiro...
por decorar uma letra de música inteirinha,
no dia em que o dinheiro pareceu cair do céu,
de vestir a roupa mais cheirosa do mundo,
e de deitar numa cama assim...
do copo de água mais refrescante que já tomei,
do meu banho de cachoeira na Várzea,
do pôr-do sol de Espinho,
da visão da Ria de Aveiro,
de quando filmei as pontes do Recife Antigo,
do pastel do Burburinho,
do show dos Beatles Cover neste mesmo bar,
de comer algodão doce na calçada e rir até o doce escorrer pelos dedos
no frio de Lajes - SC,
de sentir confiança em alguém,
de sentir alívio após a desconfiança,
de provocar a felicidade só com um piscar de olhos,
da cumplicidade brotada num só no olhar,
a alegria de ser milionária por uma tarde
(mesmo que só no planejamento),
de aprender a andar de bicicleta com meu irmão,
das muitas vezes que para o mundo não cair
bastou uma boa noite de sono...
e eu dormi...
sem lembrar mais das vezes
que a tristeza quis se aninhar nos meu braços...
faltaram dedos,
fios de cabelos,
para serem lembradas as cenas que eu construi de alegria,
e renovei cada uma ontem...
quando enfim, dormi. feliz.
cheia de história pra contar...
e de gente pra lembrar...
e foi mais uma boa lembrança...
( pôr-do-sol de Espinho - PT...]