segunda-feira, 29 de novembro de 2010

uma pausa

   toca o despertador

duas pausas

   toca o peito de solidão
   o pensamento em desilusão

três pausas

   passa você aqui
   passa você
   passa

quatro pausas

   um beijo
   demora
   mistura
   finca

Toca a sineta da realidade

pausa

   olho abre
   coração acelera

pausa
   o choro
   a noite
   os sonhos
  
Sobra tempo
para se encher de obrigações

sobra tempo
cresce o tempo

fica curto
muitocurto
pouco curtido
quase nada

tudo cheio
de escassa hora
da essência
do seu humano

fica o animal
respondendo a estímulos
Estar irRitado
nunca foi estar cheio de
nem chateado com
Estar irRitado
é estar pleno de Rita
in-Ritado
dentro dEla
tomado por Ela
na mais perfeita irRitAção
minha pequena flor:
entre as pernas
há uma abertura sem fim
entre as tuas folhas um colorido esverdeado
pleno e instigado pelas águas vindouras

minha pequena flor
o que tu me dizes
me arrepia
me contorce as ideias
me incomoda
porque és tão pequena
és tão minha
minha, tão pequena

que o mundo todo não cabe em mim
diante da felicidade
de vê-la crescer
tão pequena
tão grande

há um buraco, pequena

no meio do meu peito
quando tu resolveres ganhar o mundo
o meu mundo
para além dele

ah, pequena
se tu não tivesses todo esse tamanho
serias colocada em meu ventre, amada
em meu seio
em meu leito
bem pequenita

mas aos meus cuidados
aos meus olhados

e serias tão formosa
mas tão bela, flor
mas tão desconhecida
e bruta flor matuta

pelo zelo que te terias
não a deixaria levar uma poeira se quer
tão pouca chuva
nada de vento
e um tantinho só de terra

somente o ar de minha boca

e a guardaria em meu livro de cabeceira
até que durasse a minha memória para além de suas páginas
Elas contrataram
receberam
apresentaram
beberam
comeram
rezaram
amaram
recitaram
e fuderam poesia a noite toda

passaram carmim nos beiços

ajeitaram as saias

subiram nas bolas do Recife Antigo

e "nunca mais foram lá"!

A ressaca das ideias desta literatura
entre as elis's, as regina's, as anna's e as rita's...

Safira

Vermelho colar
escorre
pelo busto laranja

Cabelos dourados
escondem
poéticos sorrisos

Sapatilhas
pisando em sustos

Olhos verdes encantados
vestidos brancos
galegas canções

A beleza expressiva grita
vem chegando Rita
Machucando corações

Por Malungo, o poeta, em 18 de novembro 2010.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Desculpa, minha querida veinha...

Aperto bem forte entre os dedos um fruto chamado caju
o sumo se esvai
fica a fibra
a carne
e puxando em lascas verticais os pedaços
pouco a pouco
meus dentes perfuram esta carne
rumino a fruta...

A sensação que tenho de repuxo no coração
quando discuto com você é esta
parece meu coração um caju
despedaçado
ingrato quando lembro que é ele mesmo que pulsa de amor
por você
por um outro
ele atrai
ele me trai.


ingrato quando ele se apunhá-la
e sabe que doendo nele
dói mais em mim...
e que o ruminar as palavras
aumenta as fibras a serem repuxadas
engolidas neste órgão dúbio, meu coração...

desprezo em mim essa rispidez
quando é com o outro
e principalmente quando o outro é você

desprezo em mim essa fraqueza
de não ter ainda maturidade
de somente escutar
reconhecer esse meu lugar
em baixo das tuas saias
esse que nunca saí

desprezo em mim ter agora
que estar aqui falando novamente pra mim
que já ouvi o meu algoz interno
que me falta ser mais cortês
que me falta ser mais uma filha
que uma velha amiga chata

desprezo em mim
essa falta de coragem
de discar e pedir uma sincera desculpa

e fico eu mesma chupando o caju passado
da fruta do meu coração.

odeio quando faço uma "poupança" de mágoas
e as deposito em sua conta.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

o microfone (agora) é a única coisa que me resta nesta madrugada... tenho pressa em calar...



Na inteireza e verdade de me encontrar
estou me perdendo
o cansaço me consome
a mentira me assume
a canalhice me aparece
se enfeita
me afeta

a mansidão se instala no peso
no peito
o corpo responde ao estereótipo
não responde ao pensamento
que já não responde ao sentimento
que não
que não
nem que não
o não já não tem mais o peso do não
e o sim, perdeu a graça de aproveitar o vacilo do não

nada em mim
está em mim
nada
essa que estou não sou eu
essa que sou, não é mais neste instante em mim

não me sinto confortável nesta paragem
por favor, me devolvam a mim mesma!

nada está em mim
devolva meu pensamento
minha escrita
minha literatura
minha opinião
meu consolo
meu choro
meu riso
meu ódio
devolva ao meu corpo
o MEU corpo
devolva à minha vontade
a minha gana

devolva !
isso só tem vida em mim
se é que existe isso em mim.

porque estou travestida de felicidade
que não é a minha
é a clandestina

mas sem o sabor vivo do proibido
é clandestino no pior sentido
daquele que foge
que entra sorrateiro
que invade
e estupra a alma

devolva um pedaço da minha mansidão
da minha hora farta de falta de não fazer nada
(aquela do café)

além de me inteirar com o que tenho feito
devolva as rédeas destas minhas horas que ainda não gastei

que estão vindo de encontro a mim
tão velozes
tão atrozes
algozes desta reconciliação comigo mesma

devolva o som do meu peito neste grito calado
que mora em mim estes dias
junto a uma alegria cega

eu tenho mais em mim a dar
mais que uma simples execução de afazeres
eu tenho mais em mim a dar
mais que uma simples ordem de pagamento
eu tenho mais em mim a dar
mais que um telefonema de contrato
eu tenho mais em mim a dar
muito de colocar o pé no mundo
e dar
a mim uma alegria de perna ao ar

me agarrar na poeira do pensamento
percorrer léguas numa rede pendurada à sombra fresca
provar a agitação do silêncio
a maciez desta pele
no calor de um abraço
de um braço dado, colado
apertando o outro
sentindo estar vivo
impulsionando o sangue destas veias que falam
percorrem o corpo desta mulher
desta amiga
desta filha
desta amante
desta cível
desta hipócrita
desta cínica
sonsa
sonhadora
mentirosa
artista
criadora
infame
desta que mora em mim e tem
as qualidades e defeitos iguaizinhos
a de um mero e grande mortal

ela que não morre em mim
é imortalizada em sua inteireza
se esconde por trás deste cadafalso
prestes à executá-la nesta praça de suas entranhas

tenho mais a dar
que este pensamento
não menos que um bom olhar de um por-de-sol
dar uma boa risada
de ter o prazer de desfrutar dos ambientes
de conseguir lembrar ao menos uma cor
do último lugar de pouso entre as minhas asas de borboletas
de lembrar de um sorriso ao final do dia
até mesmo lembrar da última reunião tida entre os meus olhos

tenho eu uma imensidão de sede
de ficar parada em mim um instante
para ficar viva em mim

e passear por um segundo no meu corpo
no meu juízo
no meu sentimento
afagar os meus cabelos
os meus próprios dos outros

garimpar
separar
ajuntar
passar
de bem
de boa!

isso não lhe é de direito
é de natural
querer-se bem!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A saudade travestida de desejo ou somente uma vontade de inventar história....

A saudade mora nesta árvore
assim como se enrola em seus braços
esta criatura
saudade das mais ridículas
aquela dos seus sonhos bem cerrados
aqueles que só seus olhos bem abertos
conseguem sentir

A saudade travestida de desejo
aquela que ousa passar
aquela que ousa enfeitar-se de flores
aquela que ensaia passar
quando vem o espetáculo?

Mas o que se quer dizer
é que os arroubos são frutos de um desejo
e que eles não passam de arroubos
pela falta de combustível
ela ainda está descobrindo a sua energia natural
aquela que não vem do outro
mas do seu querer

nela tem sido difícil contentar-se
com a ausência
e no discurso que não se quer
daquele sorriso
basta!
ela se retrai

está seduzida
não se sabe o que a fez assim
este verde ou o vermelho
a sedução é uma cobra
que a boteia e vai embora
não mostra o pau
esconde -se.

mas se  nestas letras há um arroubo de palavras
os sentimentos são espelhos do tempo
não param
progridem ou se transformam

estes arroubos
não os leve tanto a sério
não ria da inocência dela
brinque com ela
não cale o seu discurso
a sua literatura pode depender dele

mas se é escolha estar ausente
apresente-se a isto
colha a sua vaidade
ponha-a num saco
e não acredite em seus arroubos
não os leve tanto a sério
não os leve
deixe-os

deite na cama desfeita
porque a menina também é mulher
e pode estar abrindo mão de uma tormenta
para aproveitar um dia de sol
sem muitas palavras bonitas
mas com a companhia dela mesma.
crua e seca.
sem arranques
sem falácia
sem desejo
feliz, somente.
crua e nua.
desnuda desta conversa cega.

É somente uma vontade de inventar histórias..
Embora tenha um pouca da dela e desta-eu

Ela também sabe ser uma flor-bruta!
pequena entre as árvores, mas também bruta.