o menino tinha idade certa
não se sabe ao certo
mas a idade tinha, certamente
ele já podia sair de casa
saía
voltava
saía
voltava
ele podia sair
tinha idade certeira
de quem sai
e de quem chega
tinha dia que certo de sair
ele cruzava o tempo
e sem saber do que o movia
cruzava a vida
O menino já tinha idade
mas não compreendia
antes de sair de casa
o que ele via na cruzada do dia
era gente
era coisa
era animal
o vento, a luz, o dia, a noite...
e ele não entendia
o mundo parecia provocá-lo
ele acompanhado de si
via as companhias dos sorrisos dos outros
o peso de um afago leve no rosto
o preço do café em família
de um aperto de mão
e ele crescia?
no rodopio de um pai com o filho na praça
os olhos se enchiam de dúvidas
no abraço coletivo de amigos
a boca de desejo
o peito de sonho
mas ele via?
um sol que desfilava suas cores
um mar apressado
uma lua a mudar de roupa
um vento que afinava a voz
uma estrela desnuda?
ele sequer abria o canto da boca
nem pra dizer adeus
da idade que se despedia
e não mais tinha o menino.
[foto da Ilha do Massangano - Petrolina - Aldeia do Velho Chico - SESC - agosto 2011]

