Ao receber um livro de Clarice (seria minha primeira leitura dela),andei com o livro várias vezes debaixo do braço...
me perguntei se num ônibus seria realmente um lugar legal para se ler algo em que é tão especial para outras pessoas (costumo ler indo ao trabalho)...
Resolvi não ler no ônibus pelas inúmeras interferêcias,
inclusive de um desconhecido, agora conhecido,
em ver o livro no meu colo e iniciar uma grande conversa,
a ponto de não dar tempo de eu ler,
mesmo que eu tivesse optado por isso.
Enfim, passaram-se mais de vinte dias para poder eu pegar no bendito...
Em casa, neste 1º dia de maio, dia em que o tédio bateu à minha porta e eu quase abro a janela...
Hoje. Ao ler apenas 21 páginas (isso pq tive que receber alguns amigos em casa...)
me deu essa força de externar meu encontro com ela:
Uma terça-feira, a 1ª de maio, tida muito preguiçosa e sem atraentes... ganha um vestido vermelho-carmim e sapatos de saltos, pronta pra noite...
Ao conhecer Clarice...
Me deu medo...ao conhecer Clarice...
Foi a primeira vez que senti a leitura preencher o pensamento,
de forma ofegante,
de forma a não dar tempo de parar,
só de ler, de ler, de ler...
nos poucos momentos que pude romper a ação,
me perguntei como faria para sair dali (???????)
já não se queria mais,
já me adentravam as palavras, o sons, os sentimentos...
Veio-me um medo, uma sensação prazeroza, esquisita,
embora nem desse tanto tempo de parar pra pensar isso,
porque ao conhecer Clarice,
tive a sensaçao de encontrar alguém em que a palavra não estaria morta
após descrever sensações,
que as palavras não foram em vão... tentando externar sentindos.
Fiquei surpresa em uma etapa da minha vida em que pouco queria-se ler...
ela me trouxe a fome, a sede...
fome de deixar ela se apresentar mais...
Vi em "sua" palavra uma "desen-forma-ção" de acompanhar o pensamento,
algo que muito me incomodava no ato de escrever
algo que me fazia apagar tudo ou abandonar certas leituras...
Como disse a quem a ela me apresentou:
-Minha empolgação pode até durar o tempo desta leitura,
mas já valeu o seu nascimento!
Palavras desconexas...
Porque eu ainda, nem almejo, dialogar com as palavras como ela o fez...

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