terça-feira, 24 de julho de 2007

Canção pra quem quiser...

...

com os copos amarelados de chopp e dez-encanto

esqueço o mais,
o mais belo,
o mais esmero,
o mais externo,
o mais sincero,
o mais nojento do mundo,
o mais belo do homem,
o mais , os mais ...
esqueço a adição que o fracasso traz,
a inércia que a vitória pode trazer...
esqueço que o hoje
já diz o que houve ontem
mas que no amanhã
posso somente cogitar
esqueço que esse é o bom de ter um amanhã.
o que não é igual me dá garantia
do riso e do choro do amanhã.

com os copos amarelados do sorriso
do outro lado vejo o desengraço do outro
o embaraço da solidão
o emaranhado das companhias

com os copos amarelados do fim de tarde
esqueço que posso tentar
que posso errar
que posso, acima de tudo, acertar
esqueço que posso.
esqueço.

não lembro.

lembro sempre de esquecer.

não gosto da sensação de inanimação
da inércia amarrando meu sorriso
amarrando meus pensamentos
não gosto do agrado que deverei
pagar em parcelas suaves de chantagem.
não gosto.

não gosto da sensação...
da sensação de não poder correr do ônibus
quando me der vontade
da sensação de não poder gritar
porque estou de frente pro meu chefe
de não poder dizer que seu irmão é um chato
que a conversa dele me cansa
que seu cachorro fede
que sua brincadeira não caiu bem
que hoje eu não quero te escutar
nem pagar tua cama
que hoje eu quero ouvir o puta do brega
que hoje eu não estou apaixonada
mas que não deixei de te amar
não gosto da sensação de inutilidade
da sensação dos espertos que nunca ganham
dos bonzinhos que ganham menos, ainda
dos maus que dão beijinhos de boa noite nos filhos
das beatas que dão a bunda
dos veados que riem dos veados
das mocinhas que alisam os casados
dos casados que olham as meninas
e das meninas que odeiam as bonecas
- mesmo que pouco tenham tido contato com elas -
da avó que veste vestidos da "Dona Benta"
e que passou a vida quase toda sendo o lobo mau
do meu jeito caridoso e imoral a mim mesma
da auréola que carrego sem ter comprado
da santa que leva o meu nome
e que a carrego nas costas
dos maus olhados dos que foram pouco amados
de mim quando passo pra esse time de fudidos
pouco privilegiados
dos meus amigos que somem
quando quero só dar-lhes uma abraço
pegar na mão e mostar a lua em noite cheia
no marco zero
no marco golf
no marco do tempo.

...

Um comentário:

Zest Artes e Comunicação disse...

Putz... Danou-se!!! Texto maravilhoso...