quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Uma carta


Ela não tem destino certo...
onde tiver mar e alguém à beira dele,
pode ser o destinatário...

Tenho me calado todas as noites à espera de alguém pra conversar
conversar coisas miúdas
desapegadas
destreinadas
pouco elaboradas...
alguém pra tomar um copo
uma cerveja,
um vinho,
um café.
alguém pra catucar com o dedo a cintura e fazer rir
alguém pra tirar uma flor do chão e colocá-la na cabeça
alguém que me conte como foi a chateação do dia
a alegria do dia
a risada da moça ao lado do banco no ônibus
do cachorro que acompanhou o dono até a parada
e balançava o rabo, mesmo sendo mandado embora
da velhinha que anda sem ter pressa pra chegar
da dança das folhas no sopro do vento
de tudo que viu na vinda-vida ao meu encontro
da sensação de querer se molhar naquele dia
com um banho de chuva
e o céu se amostrando sem nenhuma nuvem
da raiva que deu quando chegou na ponte
e viu que não podia pular no rio pra se refrescar
da saudade de um gato que tinha quando era criança
da carta que fez quando não sabia nem ler
do sonho de ser presidente pra ter em casa todos os dias pão fresquinho
da música que odiava ouvir quando criança
mas que hoje chora à primeira batida escutada
da sensação do primeiro beijo
e da sua ingenuidade em não ter agarrado de vez a pessoa beijada.
tenho me guardado a noite com uma vontade de ter seu ombro
só pra encostar a cabeça e olhar a paisagem
pra escutar uma música qualquer
para ver pessoas quaisquer
pra ver pessoas andando
pessoas conversando
pessoas rindo
pessoas...
vontade de escutar seus labores
seus amores
suas histórias
suas tempestades
vontade de ter você um pouquinho
de me doar um pouquinho
nem que seja só pra franzir a testa ou os olhos
numa careta de menina mimada
mas muito feliz!

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