Quando ela acha por bem
se sacoleja e se arranca da cama em Três tempos...
não quer ser acordada
não usa relógio para não ficar presa ao tempo
Ao objeto
Aos compromissos
Ela levanta, usa o banheiro
Olha o quarto, sem ver.
Sai deste canto. Calada.
Faz um barulho com os dentes para se sentir.
Evita o som de um animal qualquer na janela.
Põe a roupa que não carece ser passada, não carece de arranjamento
É tida, é toda, é tudo que é feito para ela sem a encomenda do desejo
Somente do que chega
Nada lhe faz falta no estilo, cabe em tudo
Empina um beiço quase carmim
Se aninha no cabelo, os dedos
Usa das unhas para dar fim a um cravo
Percorre uma milha do próprio corpo
Até se sente, ressente, assenta, o cento de pele que lhe cabe
Volta ao banheiro, ainda com a porta esgueirada que deixara pra trás
Passa pelo quarto, como quem vai fazer um check-out de hotel
Desce as escadas sem lembrar do corrimão
Sem se importar com os degraus
Atravessa a rua
Anda, anda, anda
Às vezes, voa.
Às vezes, se põe asas vinda de um não sei onde
Às vezes, se amarra num banco de ônibus
Até o sem fim
Andando por horas não contadas
E desce quando quer
No meio do nada
Ou bem no meio de tudo
Vestida de trator
De ignorância
De prepotência
De cegueira do outro
Passa assim, como quem não precisa do olhar de quem a vê
Certa da observação
Passa somente
Só passa
Mas incomoda
Não pelo cheiro, pelo andar,
Pela pele de porcelana, pelas ancas a marcar o tempo
Nem tão pouco pelo belo desenho de Deus na boca
Nada disso.
Incomoda, ela
A todos,
Pela companhia que a acompanha
De mãos dadas
Ela e a Solidão.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
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